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Colunistas

Singrando pelas Correntezas da Vida

No conto de Omar Dimbarre, um mergulho nas águas da memória e o reencontro com a própria essência.

Omar Dimbarre

Omar Dimbarre

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Por Omar Dimbarre

Os dias gelados do inverno estavam se despedindo, com a temperatura ficando cada dia mais agradável. A semana que passou havia sido difícil e  eu estava um tanto amargurado, me questionando sobre o que faz valer a pena estar por aqui, com tantos obstáculos pelo caminho.

Aproveitei que o sol da tarde ainda não estava quente e peguei a estrada rumo ao interior. Precisava ficar um pouco isolado, e meditar.

Em certa parte do caminho, me aventurei barranco abaixo e sentei em uma pedra à sombra de uma frondosa árvore ao lado de um rio. Apanhei uma pedra e joguei em seu leito.

Fiquei observando as pequenas ondas se afastando do centro, e aos poucos se tornando cada vez menores, até desaparecerem completamente. Encostei minhas costas no tronco, recolhi um graveto que estava caído no chão, e atirei na água.

Um pequeno círculo se formou novamente, e em seguida, ele flutuou e seguiu seu curso levado pela correnteza. Algumas folhas desciam, deslizando suavemente — protagonistas de uma dança realizada pela natureza — até atingirem o solo. Duas delas pousaram sobre minhas pálpebras, que já se sentiam pesadas. Absorto pelos movimentos que aconteciam naturalmente naquele ambiente, segui junto com
aquele pequeno pedaço de madeira.

Misteriosamente, me transportei para cima daquele objeto que carregava consigo a essência de uma vida maior, que cresceu, dele se desprendeu, acabando arremessado ao chão.

Aquele filho desgarrado se transfigurou  em um barco, e sentado em seu interior, como um navegador solitário que singra os mares, iniciei minha jornada.

Logo que embarquei naquelas águas, o silêncio foi rompido pelo estalo de galhos quebrados e pelo roçar das folhas. Atônito, mirei a beira do rio, quando, subitamente, um ancião surgiu por detrás da mata ribeirinha.

De face bastante enrugada, barba branca longa, mãos calejadas e trajando uma calça jeans e uma jaqueta surrada pelo tempo, parecidas com as que eu usava em minha juventude, acenou para mim pedindo carona.  Conduzi a embarcação até a margem, e atraquei.  Com a serenidade de um monge que contempla o alvorecer, esboçou um  largo sorriso e entrou no barco.

Sentou ao meu lado em completo silêncio. Mas, sua presença falava mais do que qualquer palavra.

Enquanto seguíamos com o fluxo do rio, viajamos no espaço e no tempo. Estávamos os dois na rua em frente à minha casa, e lá estava eu, menino ainda, rodeado por amigos, sorridente, correndo, brincando e comendo frutas.

A rua era uma extensão da nossa moradia e a felicidade brincava junto conosco.  A bola quicando no chão, as brincadeiras de esconde-esconde, de pega-ladrão, a corda balançando ao ritmo cadenciado dos saltos. Ficamos um bom tempo ali, acompanhando o entusiasmo daquelas crianças.

Em um determinado momento, ele apertou meu braço e fez sinal que precisávamos prosseguir.

Mas, antes de partirmos, deslizamos pelo tempo, e me vi adolescente, sentado na beira da rua  conversando e tramando planos mirabolantes; qualquer ideia maluca virava prática, transformando tudo em algazarra, símbolo da liberdade que atravessou uma época de devaneios.

Saltamos para a calçada ao lado da casa que me abrigou por quase toda a minha vida. Olhei pela janela da cozinha e vi minha mãe preparando o almoço de domingo: o aroma do tempero caseiro, que impregnava todo o ambiente, misturava-se com o assovio do meu pai, sentado na sala. Invadiu-me uma gostosa saudade de nossos almoços dominicais, da sobremesa preparada com carinho e da mesa com a família reunida ao seu redor. Que época maravilhosa. Não queria mais sair dali, mas o ancião estendeu-me seu braço e alçamos voo novamente.

Transportamo-nos por centenas de quilômetros  e fomos parar no litoral. Aterrissamos na

areia, embalados pelo barulho das ondas quebrando na praia. E lá  estávamos nós, jovens sonhadores, com os olhares vislumbrando a imensidão do oceano, perdidos no horizonte, sorrindo enquanto o sol se despedia e desaparecia no infinito.

Os risos seguiram junto em nossas caminhadas à beira-mar, e aportaram dentro de uma loja de discos, enquanto garimpávamos em busca de algum álbum raro ou desconhecido, manuseando cada capa cuidadosamente, desejando ampliar nosso repertório musical. Ancoramos então, ao lado do toca-discos, ouvindo música, com nossos copos de cerveja no chão,  enquanto o bate-papo aquecido por nossos sonhos utópicos rolava desenfreadamente.

Acalentado por aquelas imagens nostálgicas, me encostei no ombro do meu guia, e uma lágrima escorreu do meu rosto. Mas, não era de tristeza, era de alegria. Havia uma certa alquimia naquelas conversas que se amalgamava com os sonhos juvenis.

Ele segurou minha mão e  retornamos ao lugar de nossa partida. Contemplei a natureza, colhi pedras do chão, ouvi o murmurar das águas do rio, me encantei com as flores silvestres que explodiam no começo da primavera e com os pássaros entoando melodias.

Então, a noite caiu, e me vi contemplando o céu coberto de estrelas. Fiquei embevecido pela beleza celestial; tal qual uma obra de Van Gogh, o Universo pincelava o firmamento. Uma sinfonia noturna tocada por grilos quebrou o silêncio e tornou-se trilha sonora daquele momento hipnótico.

Radiante, fui abraçar o velho que me conduzia, mas ele havia sumido. Chamei-o diversas vezes, sem resposta. Caminhei em sua busca e o avistei sentado sobre uma pedra, ao redor de uma fogueira. Levantou-se e veio ao meu encontro de braços abertos. Ao me acolher,  olhei profundamente sua face e dei-me conta de que o ancião que me guiava era eu mesmo, alguns anos mais velho.

 Neste instante, pingos grossos de chuva começaram a cair sobre minha cabeça, despertando-me. Envolvido em uma paz profunda, olhei para o infinito, enquanto a água que descia do céu se tornava cada vez mais intensa. Então levantei-me e, tal qual Gene Kelly no clássico “Cantando na Chuva”, segurei um galho coberto por folhas sobre minha cabeça e, no tapete de grama verde que se estendia ao lado do rio, pus-me a cantarolar e a dançar.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.


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